Presença e Memória

A memória de Eduardo Pitta não se limita à data da sua morte nem ao registo das homenagens póstumas. Perdura na sua obra, nas leituras que esta continua a suscitar, nas imagens, nos testemunhos e nos documentos aqui reunidos.

Esta secção reúne sinais dessa permanência: votos de pesar, textos institucionais, evocações pessoais, fotografias e outros materiais que documentam o modo como Eduardo Pitta foi publicamente recordado na sua condição de escritor, poeta, crítico literário, cronista, memorialista e figura de intervenção cívica.

É uma página de memória, mas também de presença: o que permanece quando uma voz se cala e, ainda assim, continua a fazer-se ouvir.

Retrato de Eduardo Pitta
Eduardo Pitta
9 de Agosto de 1949 · 25 de Julho de 2023

Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.

Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.

Presidente da República evoca Eduardo Pitta

As palavras do Presidente da República reconhecem, no momento da despedida, a importância literária e cívica de Eduardo Pitta: poeta, ficcionista, crítico, cronista e memorialista, autor de uma obra marcada pela lucidez, pela exigência formal e por uma intervenção pública firme em torno da liberdade, da memória e da condição homossexual. Um testemunho institucional que honra o escritor e a sua presença singular na literatura portuguesa contemporânea.

Poeta, ficcionista, crítico, cronista, memorialista, Eduardo Pitta nasceu em 1949 numa Lourenço Marques onde a vida era diferente da vida na metrópole, mais espaçosa, mais livre, menos vigiada pela censura, de inclinação mais anglófona e com um mais amplo acesso à literatura e à cultura contemporâneas (através nomeadamente das boas livrarias laurentinas e sul-africanas).

Estreou-se como poeta em 1974, e veio viver para Portugal no ano seguinte. Tal como já acontecera em Moçambique, manteve colaboração regular na imprensa, destacando-se o trabalho como crítico literário nas revistas «Ler» e «Colóquio-Letras», textos depois reunidos em volumes que constituem uma breve história da poesia portuguesa de três décadas.

A sua própria poesia, culta, concisa, exata, por vezes agreste, tem como «marcas de água» (título de uma antologia de 1999) o fim do Império, o confessionalismo cifrado, as leis da atração e a condição homossexual, à qual dedicou também um ensaio pioneiro, «Fractura» (2003), e uma convicta militância sócio-política. Ao seu marido apresento as minhas condolências.

Marcelo Rebelo de Sousa
Presidente da República · 26 de julho de 2023

Fonte: Presidência da República

Câmara Municipal de Lisboa — Voto de Pesar n.º 37/2023 — Pelo falecimento de Eduardo Pitta

A Câmara Municipal de Lisboa assinalou, no Voto de Pesar n.º 37/2023, o falecimento de Eduardo Pitta, ocorrido a 25 de julho de 2023, em Torres Vedras, aos 73 anos. O documento evoca o escritor, poeta, ensaísta e crítico literário nascido em Lourenço Marques, em 1949, onde viveu até 1975, ano em que se fixou em Portugal.

Nasceu em Lourenço Marques, em 1949, onde viveu até 1975, ano em que se muda para Portugal. As letras e a escrita corriam nas veias e foram a vida de Eduardo Pitta.

Escritor, poeta, ensaísta e crítico literário, Eduardo Pitta era um dos grandes nomes da Cultura portuguesa contemporânea. A liberdade de orientação sexual, uma das suas grandes causas, atravessou muito dos seus trabalhos.

Como qualquer pessoa da Cultura, não era indiferente ao que o rodeava, na nossa cidade, de Lisboa, no nosso país, na Europa e no mundo. Cidadão atento e comprometido com responsabilidades cívicas, lutador de Direitos, defensor da Dignidade e do Respeito, sempre se assumiu com uma dimensão aristocrática que não o blindava nem o tornava indiferente perante os problemas.

Desde cedo que começou a produzir escritos. Em 1974, tinha o seu primeiro livro de poemas publicado: «Sílaba a Sílaba». Cinco anos depois seguia-se «Um Cão de Angústia Progride». No campo da poesia redigiu 10 livros. Aos quais acrescem três livros de ficção, dois de crónicas e quatro obras de ensaios e críticas.

Era presença regular nas revistas «Ler», «Sábado» e «Colóquio-Letras», bem como nos jornais diários «Público» e «Diário de Notícias».

Casou-se com Jorge Neves, em 2010, o seu companheiro, paixão de toda a vida, que conheceu em Moçambique e com quem mantinha uma relação desde 1972. Lisboa, mais propriamente o bairro de Alvalade, foi o local de toda uma vida em Liberdade e Democracia.

Nas ruas de Alvalade, mais propriamente um mural da autoria de Vanessa Teodoro, as palavras de Eduardo Pitta estão marcadas:

“A vida é uma ferida?
O coração lateja?
O sangue é uma parede cega?
E se tudo, de repente?”

Eduardo Pitta faleceu, no dia 25 de julho, aos 73 anos, em Torres Vedras.

Assim, a Câmara Municipal de Lisboa presta homenagem a Eduardo Pitta, manifestando profundo pesar pelo seu falecimento, expressando as mais sentidas condolências à sua família.

Câmara Municipal de Lisboa
Voto de Pesar n.º 37/2023 · 26 de julho de 2023

Fonte: Documento PDF — Boletim Municipal da Câmara Municipal de Lisboa

Assembleia da República — Voto de Pesar n.º 440/XV — Pelo falecimento de Eduardo Pitta

O Voto de Pesar n.º 440/XV, pelo falecimento de Eduardo Pitta, foi lido em plenário, em 22 de setembro de 2023, pela Deputada Edite Estrela, Vice-Presidente da Assembleia da República, tendo sido aprovado por unanimidade.

Faleceu no passado dia 25 de julho, aos 73 anos de idade, Eduardo Gama Cândido Pitta Pereira.

Nascido em Moçambique, em 1949, e onde viveria até 1975, Eduardo Pitta deixa uma marca de relevo na literatura portuguesa contemporânea como poeta, escritor e ensaísta. Publicou livros de poesia, ficção (contos e romance), ensaio, uma coletânea de crónicas, dois diários de viagem e um volume de memórias.

Os seus principais livros de poemas, de que são exemplos «Sílaba a Sílaba», «A Linguagem da Desordem», «Marcas de Água» e «Desobediência», entre outros, encontram-se traduzidos em inglês, castelhano, italiano e hebraico e a sua poesia está representada em várias antologias portuguesas contemporâneas. No conto destacam-se, entre vários, «Devastação», e a trilogia «Persona».

Em 2003, o seu ensaio «Fractura» aborda de forma inovadora o tema da homossexualidade na literatura portuguesa contemporânea. Eduardo Pitta fez da identidade homossexual matéria de criação literária, mas sem abdicar do primado da qualidade artística. O seu estilo de escrita por vezes violento e cortante, com uma ironia fina, uma visão agreste da existência, um pathos autobiográfico, deixou uma marca original na produção literária nacional.

Destaca-se, ainda, na sua obra mais recente, o seu livro de memórias, «Um Rapaz a Arder», publicado em 2013, abrangendo o período entre 1975 e 2001.

Ao longo da sua carreira, participou em encontros de escritores, seminários e festivais de poesia em Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia e Colômbia. Fez crítica literária nas revistas «Colóquio-Letras» (1987–2018), «LER» (1990–2006) e «Sábado» (2011–2022), bem como nos jornais «Diário de Notícias» (1996–1998) e «Público» (2005–2011). Entre 1994 e 2006 assinou na revista «LER» a secção de crítica de poesia, publicando, entre 2008 e 2014, crónicas na coluna Heterodoxias. Foi ainda o responsável pela edição da poesia completa de António Botto.

Em 2010 casou com Jorge Neves, seu companheiro desde 1972, tendo sido uma das figuras públicas que se bateu pelo reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo, integrando o Movimento pela Igualdade.

Assim, a Assembleia da República, reunida em sessão plenária, presta a sua homenagem à memória e ao legado de um poeta que marcou indelevelmente a cultura portuguesa, manifestando o seu pesar pelo desaparecimento prematuro de Eduardo Pitta, transmitindo aos seus familiares e amigos os votos do seu sentido pesar.

Leitura do Voto de Pesar na Assembleia da República.

Assembleia da República
Voto de Pesar n.º 440/XV · aprovado por unanimidade · 22 de setembro de 2023
Ver documento (PDF)

António Fernando Cascais recorda Eduardo Pitta

Eduardo Pitta.
Eduardo Pitta
Eduardo Pitta.

António Fernando Cascais escreveu, no momento da perda, uma das mais lúcidas homenagens a Eduardo Pitta: não apenas ao escritor, poeta e crítico, mas à figura livre, cosmopolita e incómoda que a cultura portuguesa nem sempre soube compreender. Neste texto, a tristeza dá lugar ao reconhecimento de uma obra e de uma coragem raras — a de quem escreveu contra as amarras, com soberania, exigência e uma honestidade difícil de domesticar.

Eduardo Pitta. É uma perda maior do que se imagina para a cultura portuguesa em geral e para a cultura queer em particular, pela abertura que ele significou, significa. Figura de cultura cosmopolita, trazida da influência anglófona sul-africana com quem conviveu diretamente no Moçambique de origem, mostrou-se liberto das amarras que tolhem a esmagadora maioria da escrita nacional armarizada. Cultivando um snobismo muito próprio na esteira de Gore Vidal de que gostaria de ser o émulo português, o Eduardo estarreceu quando tentei explicar-lhe, a ele que ignorava por completo o mundo académico, que nós, professores universitários e investigadores, há muito deixámos de ter sobre aquilo que escrevemos o tipo de soberania que ele, como escritor e poeta, mantinha sobre os seus textos. Não sabia o que era a revisão por pares e porque é que eu não a recusava, quando lhe disse que um ensaio como o seu «Fractura» daria direito, na universidade, a não ter mais carreira, ele que foi uma pedrada no charco podre da crítica literária nacional. Não creio (mesmo nada) que tenha sido cabalmente compreendido e decerto que não aceite e ele tinha consciência disso, como mostrou nas entrevistas. Não vou cometer a banalidade de dizer que ficamos mais pobres, embora com certeza que mais lutuosos, porque a obra aí fica. Difícil no trato, seria esse o preço que cobrava pela sua honestidade e coragem, absolutamente admiráveis e raras entre nós. Requiescat in pacem.

António Fernando Cascais
Publicação no Facebook · 25 de julho de 2023 — em publicação de acesso restrito aos seus amigos. Transcrito aqui com autorização do autor.

Rui Zink recorda Eduardo Pitta

Eduardo Pitta.
Eduardo Pitta
Eduardo Pitta.

O escritor Rui Zink recordou Eduardo Pitta numa publicação no Facebook — um retrato em registo pessoal, entre o divertido e o terno, que evoca o amigo e o poeta, a sua ironia e a sua honestidade desarmante, e se fecha numa despedida breve e sentida.

A propósito do Eduardo Pitta, é giro ver os comentários de quem nunca o leu a desdenhar. Noutras circunstâncias não teria tanta graça, no caso do Eduardo tem. Desde logo porque, embora carente de carinho e atenção como todos nós, ele não desdenhava do secreto prazer de ser detestado. Era um palaciano fora do palácio, um snob que sabia o que quer dizer snob: alguém que está quase lá (neste caso, no palácio) mas que tem perfeita consciência de que nunca estará lá, porque não nasceu lá. Daí que tivessem tanta graça os seus relatos do luxo em hotéis cinco estrelas a que, após meses de poupança, acedia por um magrinho par de noites.

Depois, a sua outra face: levando muito a sério o hobbício de poetar. (Para quem tem dificuldade com neologismos: hobby + ofício + vício — tudo isso poetar é.)

Era incrivelmente honesto e, quando apreciava o trabalho, mais generoso com os outros que consigo.

O livro seu que mais me tocou foi «Persona», um conjunto de contos breves, salvo erro três, mas não o tenho aqui à mão. Penso que ficará, e talvez agora seja mais lido. Merece.

Não guardava uma visão romântica da vida colonial — mas não renegava as suas memórias, e assim deve ser. Viveu meio século com o amor da sua vida apesar de, por circunstâncias técnicas que me escapam (lá terei de me informar), só em 2010 terem podido casar. E casaram.

Era atento ao mundo em volta, fosse o político, o humano ou o literário, que embora sejam o mesmo nos últimos tempos cada vez menos se tocam.

Quando lhe faziam um elogio, apreciava, corava e desconversava. Pelo menos é a impressão que tenho e guardo boas anedotas (leia-se: episódios, nem todos cómicos, mas todos engraçados) dele.

Como bom quase-palaciano, sabia ser viperino, sempre mais por brincadeira que por maldade. Até porque (fragilidade comum em artistas) gostava que gostassem dele.

Gostávamos, Eduardo. Gostávamos.

Rui Zink
Publicação no Facebook · 26 de julho de 2023
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Isabela Figueiredo recorda Eduardo Pitta

Eduardo Pitta.
Eduardo Pitta
Eduardo Pitta.

Nesta homenagem, a escritora recorda Eduardo Pitta para além da obra literária: a figura pública dos blogues, o escritor mordaz e snob, mas também o homem nobre, generoso e decisivo no reconhecimento do seu próprio percurso. Entre ironia, gratidão e luto, o texto fixa um Eduardo simultaneamente temido, admirado e profundamente estimado.

Não sou de obituários, mas tenho de me pronunciar sobre o Eduardo Pitta.

Deixarei de parte a sua poesia, prosa e ensaio, que em Portugal romperam com o status quo e marcam um novo tempo.

No tempo dos blogues era impossível não o seguir. Era uma referência e o seu snobismo gerava em mim um fascínio e um horror combinados. Amava-o e detestava-o. Ainda me lembro dos seus melhores posts sobre flutes e sobre o carro da amiga francesa que não cabia na entrada da garagem do melhor hotel do Chiado. Portugal pindérico. O Eduardo era uma delícia que se punha a jeito. Arranjei-lhe uma alcunha bem má: Dadinha Pitão. Usei-a nos blogs. Um dia, escreveu-me a pedir a gentileza de não voltar a referi-lo dessa forma. O que respeitei. Comecei a vê-lo de outra maneira. Sim, ele tinha o fascinante lado Dadinha, mas era um senhor. Havia nele nobreza. Mais tarde, quando lancei a primeira versão do «Caderno de Memórias Coloniais», na Angelus Novus, o Eduardo foi o primeiro a escrever-me, a apoiar-me, a motivar-me e apresentou o livro em Lisboa. Validou-me contra todos os que me declararam como mentirosa. Sim, aquela era a realidade colonial.

Devo muito ao Eduardo Pitta. Devo-lhe a minha carreira, provavelmente. E ele poderia ter sido mauzinho comigo. Justificar-se-ia. Mas era um nobre. Generoso. Um senhor.

Nós somos todos o mesmo, mas o mesmo é diverso. Beberei uma flute de champanhe à memória do Eduardo e sei que voltaremos a encontrar-nos no tempo-espaço. Tenho a certeza de que saberá vingar-se de mim com uma alcunha cabeluda. Mereço.

Até já, meu caro. O éter é um cubículo. Encontramo-nos todos.

Obrigada, querido Eduardo.

Isabela Figueiredo
Publicação no Facebook · 26 de julho de 2023
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Teresa Sousa de Almeida recorda Eduardo Pitta

Eduardo Pitta.
Eduardo Pitta
Eduardo Pitta.

Teresa Sousa de Almeida evoca Eduardo Pitta num testemunho de admiração e perda. Da amizade breve, da apresentação de Devastação e da permanência da sua obra ficam a estima, a gratidão e a consciência de uma presença que a leitura continua a preservar.

Poeta, romancista, autor de umas memórias extraordinárias, ensaísta, crítico e cidadão exemplar, o Eduardo foi uma das pessoas por quem tive mais consideração em toda a minha vida. Deu-me a honra e a alegria de apresentar o seu último livro, “Devastação”.

A minha admiração foi e será sempre imensa, mas a nossa amizade, começada aqui no Facebook, foi demasiado breve. Resta-me a sua obra fabulosa que nunca deixo de reler.

Um forte abraço a Jorge Neves, seu companheiro de sempre e seu marido.

Teresa Sousa de Almeida
Publicação no Facebook · 25 de julho de 2023 — em publicação de acesso restrito aos seus amigos. Transcrito aqui com autorização da autora.